13.7.08

# 8 - O fio do silêncio...


Alfredo Cunha


« Houve um tempo em que não era invulgar usar-se um bocado de fio para orientar as palavras que de outro modo poderiam perder-se pelo caminho e não chegar aos seus destinos. As pessoas tímidas traziam pequenos novelos de fio nos bolsos, mas considerava-se que os palradores também necessitavam deles, pois quem estava habituado a fazer-se ouvir inadvertidamente por toda a gente sentia por vezes dificuldade em ser escutado. A distância física entre as pessoas que usavam os fios podia ser muito pequena; por vezes, quanto menor era a distância, mais o fio era necessário. ...
Às vezes não há fio nenhum que seja suficientemente comprido para dizer aquilo que é preciso dizer. Em tais casos a única coisa que o fio pode fazer, qualquer que seja a sua forma, é conduzir o silêncio de uma pessoa. »

Nicole Krauss

23.6.08

# 7


Daniel Mordzinski - Enrique Vila-Matas*

«Não se sabe que a flor preferida de Litvinoff era a peónia. Que o seu sinal de pontuação preferido era o ponto de interrogação. Que tinha sonhos horríveis e só conseguia adormecer de todo, com um copo de leite quente. Que costumava imaginar a sua própria morte. Que achava que a mulher que o amava fazia mal em amá-lo. (...) Estas coisas perderam-se no esquecimento como tantas outras acerca de tantas outras pessoas que nascem e morrem sem que alguém se dê ao trabalho de fazer o registo das suas vidas.»

Nicole Krauss, A História do Amor


* Autor de Paris Nunca se Acaba, Dr. Pasavento, Os Exploradores do Abismo, entre outros

21.6.08

# 6


«Cirandava pela casa num quimono com flores vermelhas impressas, e onde quer que ela fosse deixava um rasto de folhas amarrotadas. Antes de o meu pai morrer, costumava ser mais arrumada. Mas agora, se quiséssemos encontrá-la, a única coisa que era preciso fazer era seguir as páginas de palavras riscadas, e no fim do rasto lá estaria ela, a olhar para a janela ou para um copo de água como se lá estivesse um peixe que só ela podia ver.»

Nicole Krauss

Fotografia de José Marafona

20.6.08

Noite


Nanã Sousa Dias


As noites são difíceis
quando pousam
sobre a pele...
quando arrastam
consigo a verdadeira

história
das coisas

que nos rodeiam.

18.6.08

Do arquivo...

Geoffroy Demarquett

Reconheço que sou uma pessoa de silêncios... e por vezes, esses silêncios dizem mais de mim do que todas as palavras por mais duras e frias... ou suaves e mornas que sejam. E quem me conhece... imagino que não dirá o mesmo. Talvez porque não se apercebam que não é de mim que falo. E se um dia... tivesse que me descrever em duas ou três palavras, imagino que aquilo que eu diria talvez fosse:... nada. Silenciar-me-ia. E talvez sorrisse desviando o olhar para o horizonte. Sei que é estranho. Mas é no silêncio que me sinto confortável. Porque conheço demasiado bem o encantamento que as palavras surtem em nós em jeito de um murmúrio. O modo como as ilusões são doces e nos envolvem quando nos distraímos. Quando nos esquecemos que estamos a ouvir com o coração.

07.Setembro.2005

# 5


Rui Miguel Figueiredo

«Sem o admitirem um ao outro ou a si próprios, ligaram os seus destinos, os seus futuros (o seu Amor, a sua Loucura, a sua Esperança, a sua Infinita Alegria) ao dele. Iam vê-lo todas as noites (com pânico crescente à medida que o tempo passava) para verificarem se ele sobrevivera ao dia. Afligiam-se com a sua fragilidade. A sua pequenez. (...)
Escolheram-no porque sabiam que tinham de ter fé na fragilidade. Agarrar-se à Pequenez. De cada vez que se separavam, levavam consigo apenas uma pequena promessa um do outro.
- Amanhã?
- Amanhã.
Sabiam que tudo pode mudar num dia. Tinham razão quanto a isso.»

Arundhati Roy

17.6.08

# 4


Marília Gomes

«Mas aquela primeira tentativa desajeitada serviu para lhe mostrar que a imaginação era, em si própria, uma fonte de segredos. Depois de começar uma história, não podia dizer nada a ninguém. Fingir com as palavras era um acto demasiado experimental, vulnerável e embaraçoso para que pudesse revelá-lo a alguém.»

Ian McEwan

15.6.08

# 3


Alfredo Cunha


...

De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.


Eugénio de Andrade

12.6.08

# 2


Olga Gouveia


« Agora não estaria disponível para o homem perfeito, aquele que deteria o tempo com o poderoso torpor dos seus músculos. Se esse homem existisse, Will não o encontraria, porque tinha encontrado outra pessoa, um homem meigo que estava a perder o cabelo. Algo crescia dentro dele, qualquer coisa que se lhe colava à pele. Sentia-se exultante e, com menos frequência, desconsolado. Dormiu diversas vezes com rapazes bonitos e tolos que conhecia nos bares ou no ginásio. Oferecia coisas a Harry, discos de jazz, uma camisola de caxemira, papel de carta francês. Temia tudo o que podia acontecer, todos os acidentes do mundo, e chorava, às vezes, de uma mágoa e uma felicidade que não conseguia nomear. »

Michael Cunningham

11.6.08

# 1


Ana Meireles

...
É como se voltasse apenas de perfil; e
do romance outrora longamente entalado
entre os dedos já só sobrasse uma lombada
estreita, acanhada na estante. Havia um
sonho exausto sobre as minhas pálpebras
antes de ter chegado; e agora

que regresso, não tenho voz que o diga -
sou de lugar nenhum, ninguém me tem.
Chama-me, se quiseres. Talvez a porta se abra
se disseres o meu nome devagar. Di-lo
mais uma vez dentro da minha boca, a trocar
o corpo com o meu. Assim, antes que eu parta
outra vez, de vez, para um lugar qualquer
onde não mais se espere o que não volta.
...

Maria do Rosário Pedreira