Memories...
Julio G. Rocha - Jazz Player (adaptado por M.)
Na rua escura por onde deambulo transportando as minhas dúvidas, ouço o som de um saxofone. Um pouco adiante vejo a porta escura do bar... iluminada em cima por uma meia luz. Dirijo-me até lá e entro. Lá dentro as imagens processam-se a preto e branco. Vou caminhando devagar e à minha esquerda, um bar com três a quatro candeeiros pendentes sobre o balcão e que iluminam os rostos sombrios daqueles que estão lá sentados... com o olhar perdido no tempo. À minha frente, várias mesas espalhadas pela sala. Ao fundo e à direita, um pequeno palco onde alguém toca... tem um fato cinzento e toca saxofone. A meia luz fosca que declina sobre ele não me permite ver-lhe o rosto. Dirijo-me ao bar, peço uma bebida e encosto-me virada para a sala.
Vejo as silhuetas curvas e voluptuosas do fumo que saiem das mesas e que pairam no ar. Olho em redor... e nas mesas vejo casais que de tão próximos denunciam intimidade. Os segredos saem agora em forma de múmurio das bocas ansiosas... os olhares mais acanhados ganham um novo alento e tornam-se mais ousados e mais intensos. A impaciência das mãos denuncia o nervosismo próprio de quem deseja ser seduzido. O movimento fluído e tenso dos corpos revela frágeis e imapcientes desejos. E o homem... esse toca de olhos fechados e curvado sobre o instrumento. O saxofone é a sua voz... fecho os meus olhos e ouço-o apenas. E no meio de toda aquela penumbra de desejos declarados e de rostos escondidos... do suave nevoeiro de fumo e deste choro quente de uma voz sem corpo... sinto a sua mágoa dolorida e muda, toda uma dor fantasmagórica que tem tanto de assustadora como de fascinante... e que nela está contida. Está tão entranhada na pele e na alma que quase vive connosco como uma sombra... E ele já não consegue viver sem ela. Quando terminou de tocar, vi-lhe o semblante... carregado... pesado e sem brilho. Ninguém bateu palmas... estavam distraídos com o impaciente consentimento dos seus desejos... Mas ele não precisa de palmas... a sua vinda ali é como um segredo. Um segredo que esconde uma dor que precisa de ser alimentada. Ele vai dando-lhe minutos, horas e dias da sua vida... e em troca recebe pequenos modos de ir morrendo... ou de ir vivendo suspenso nas suas memórias. E do seu íntimo sai apenas um aroma inaudível: ... thanks for the memory.




3 Comments:
E as dúvidas?!... ;)
uauuuu M ;) eu acho que também lá estava. A musica ouvia, o lamurio do saxofone tb, a meia luz fosca, o fumo do tabaco (esse não descreveste mas garanto-te que estava lá)... ahhhh e não reparaste mas ao canto, sózinha estava um olhar intenso e dolorido que olhava e sentia o homem...
upssss deixei-me levar pelo encantamento das tuas palavras.
Está optimo, gostei bastante.;)
Um beijo e um abraço M :)
Ó M. e será que um homem com um saxofone e a música que envolve e abraça os dois se sente verdadeiramente sozinho?
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